Livreto de Jogos

Material produzido com apoio do Programa Municipal de Incentivo a Cultural PMIC


Prezados(as) educadores(as),

É com muita satisfação que apresento o kit de jogos e material didático “A pequena Alimatá”. Este material faz parte de um projeto que tem como objetivo contribuir com a difusão da cultura africana, com foco no país do Mali, além de possibilitar aos educadores brasileiros dialogar sobre a temática. Desde a promulgação da lei 10.639/2003, que traz a obrigatoriedade do ensino da cultura africana e afro-brasileira, muitas iniciativas vêm sendo publicadas com intuito de contribuir com a aplicabilidade da lei nas escolas brasileiras. Contudo, nem sempre o simples fato de conhecer a lei nos traz a clareza do compromisso de que a escola é espaço formativo, portanto, no caso deste relato, a motivação se deu pela vivência e aproximação com a África, sua história e cultura, ambas que se relacionam com a brasileira.

Para além disso, destaco que a África não é um país como equivocadamente dizem no senso comum, mas, sim, um continente que possui 54 países. Não há, neste material, conteúdo sobre toda a África, considerando sua extensão e as particularidades de cada país, suas semelhanças existentes que os aproximam, mas que não os igualam. No entanto, por ter conhecido pessoalmente o Mali, considerei ser prudente elaborar este material educativo a partir da minha vivência como voluntária neste país, que é o sétimo maior país da África, cuja capital é Bamako. Mali se localiza ao noroeste da África, na região subsaariana e, marcado pela religião muçulmana, tem costumes e características bem peculiares. Possui aproximadamente 13 milhões de habitantes e, com mais de 40 dialetos, têm o francês como idioma oficial.

O Mali é um país rico por sua diversidade étnica e cultural. A coabitação se organiza muitas vezes num mesmo espaço geográfico, mas cada etnia maliana tem sua própria organização social, política, econômica e educativa. Cada uma dispõe de sua língua e de dialetos. Temos assim, bambaras, malingues, soninques, peúles, dogons, bozós, tuaregues, songhais, mouros, berberes, saracole, senufos, tucolores e ainda muitos outros grupos. (GASSE, 2009, p.4) 1

A cultura africana é muito rica e vale a pena conhecermos para abordarmos em nossas salas de aulas. Confira o mapa do continente para localizar o Mali.

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Africa,_administrative_divisions_-_de_-_colored.svg

Diante dessa riqueza cultural que influenciou a nossa cultura, proponho ações que visam instrumentalizar os professores para atuarem em sala. Nesta fase do projeto apresento este material organizado em uma pasta para facilitar o manuseio do(a) educador(a). Trata-se de jogos, cujas regras são conhecidas pelas crianças, abordando a cultura malinense e algumas imagens para promover a interação com a turma.

A pasta contém:

a) Jogo de trilha, com ênfase no cotidiano da cidade de Bamako e aldeias próximas.

b) Jogo de memória, cujas peças são recortes dos tecidos comercializados em Bamako.

c) Jogo do Detetive, composto por fotografias tiradas no período de 2015-2017 que retratam o cotidiano, a cultura e a educação. Os participantes devem descobrir o que a imagem representa a partir das informações dadas pelo professor.


Explicando melhor cada jogo

O jogo de trilha tem o formato do Mali e está enumerado com formas geométricas para que a criança identifique os numerais pares que serão lugares de desafios. Ao alcançar as casas pares o(a) jogador(a) retirará uma cartinha que possui uma imagem do cotidiano das pessoas que moram em Bamako, capital do Mali.



Nesta carta há uma frase comentando a imagem e sugerindo que o(a) jogador(a) avance, pule ou permaneça no mesmo lugar. Enquanto jogam, as crianças terão contato com o mapa do país e com fotos tiradas no período de 2015-2017 na cidade de Bamako e aldeias vizinhas. Neste movimento do brincar, vale a pena dialogar com as crianças sobre o que vêem, buscando valorizar a proposta de conhecer a cultura e não somente observar as regras do jogo. Ademais, é esperado que as crianças demonstrem questões relacionadas ao trabalho coletivo, ao respeito, competitividade e outras questões que emergem na vivência do jogo. Mas estas questões precisam ser discutidas, para que aproveitem ao máximo a informação e o deleite do brincar em conjunto.

O jogo de memória é composto pelas fotos dos tecidos produzidos no Mali.



É importante ressaltar que o país é produtor, exportador de algodão e tem uma tradição na fabricação de tecidos. Portanto, os tecidos africanos possuem muitas cores e desenhos que representam sua cultura, assim, encontramos a história do país estampada nos tecidos.

Os tecidos podem ser observados a partir das cores e padronagens. Diante disso, pode ser interessante convidar os alunos para observarem atentamente os detalhes.



Em adição, a população anualmente produz estampas comemorativas e através dos tecidos, por meio das estampas impressas, os malinenses contam a história do país. Este tecido também contém os nomes das cidades malinenses como se retratasse um mapa. Em decorrência da diversidade que compõe as regiões do país, há também uma vasta variedade lingüística como, por exemplo, o tecido conhecido em Moçambique como “capulana”, no Mali se da o nome de “pane”. Estes são utilizados para envolver o corpo como saia, enrolar os cabelos, servir como tapete para assentar, como porta ou janela de casas simples, enrolar e carregar o bebê etc.

Para o Jogo do Detetive houve a seleção de dez imagens que representam a cultura africana e foram colocadas em cartões maiores. Assim, propomos que o educador apresente a imagem e solicite que os participantes observem atentamente e pensem nos detalhes. Posteriormente lerá as informações sobre a imagem que está neste livreto. Neste momento, os participantes devem procurar responder o desafio procurando apontar razões que justifiquem sua resposta.
JOGO DO DETETIVE

VOCÊ É BOM OBSERVADOR? SABE INVESTIGAR?

Observe as imagens. Escute as informações ou perguntas sobre elas. Como bom detetive descubra o enigma e dê sua opinião. Todas as fotos foram tiradas no Mali/África no período de 2015-2017. Vamos lá.



Que tipo de lugar é este? Quais mercadorias estão expostas?

Informações para o educador:
O comércio popular em Bamako é feita em feiras que ocupam espaços das ruas no centro e na saída da cidade. Geralmente possuem todos os produtos consumidos por uma família. As famílias não possuem poder aquisitivo que os possibilite adquirir muitos produtos. Compram o que é possível. Nesta imagem há vassouras (sem cabo), batatas, mandiocas, etc.



O nome deste jogo, que também é o nome de um livro infantil, foram publicados em homenagem a professora Alimatá. Qual destas mulheres você acredita que é Alimatá?

Informações ao educador:
Alimatá é a primeira professora a esquerda. Conhecemos em um curso de formação. Sempre sorridente foi minha inspiração na escolha do nome do livro e dos materiais didáticos por ter pronúncia mais parecida com o português



A alimentação em Bamako e nas aldeias vizinhas é simples. Quais alimentos estão sendo servidos?

Informações ao educador:
O arroz é a base da alimentação no Mali. Como não possuem outros ingredientes fazem um caldo com vegetais parecidos com a couve e colocam sobre o arroz. Nem sempre fazem mais de uma refeição por dia. O nome deste prato é saga saga.



Os espaços para se alimentar são variados. Observe esta cena e descubra algumas diferenças entre costumes africanos e nossos costumes.

Informações ao educador:
O costume local é comer com as mãos e se assentam em tapetes ou cadeiras se tiver no local. As mulheres e crianças são servidas depois dos homens. Nesta foto registramos o horário de almoço no intervalo do curso de professores.



Existe um esforço em pensar sobre a saúde e os cuidados básicos no Mali. Na sua opinião em que momento acontece esta cena?

Informações ao educador:
Muitas doenças são transmitidas entre os africanos pela falta de higiene, pela contaminação da água e dos alimentos. Nas escolas que visitamos encontramos este sistema para lavar as mãos. Mas neste caso, estávamos numa aldeia e éramos estrangeiras, por isso fomos cuidadas de maneira diferenciada.



O comércio local é bem variado. Observe o que é vendido e diga que tipo de comércio está representado na imagem.

Informações ao educador:
O comércio no centro da capital Bamako se encontra em ruas de terra e não são parecidas com as nossas. Paredes de madeira e telhado simples. Há uma banca de relógios, e uma livraria. Os livros são produtos raros e escritos em francês. Nem todos podem adquiri-los



O fragmento de um lugar. O que está acontecendo? Para onde este caminho vai dar?

Informações ao educador:
Para chegar nas aldeias percorremos longas distâncias e muitas vezes as estradas são alagadas em períodos chuvosos. Os carros são raros e possuem vans para o transporte público.



Nem todos tem trabalho. Mas, alguns homens desempenham esta função. Qual é a profissão deste rapaz?

Informações ao educador:
Muitas pessoas utilizam a rua para estender o espaço do seu comércio ou serviço. Neste caso há um costureiro com uma mesa de corte de roupas. Não há lojas e as roupas são costuradas sob medida por eles. As mulheres são minoria na profissão.



Sabemos que as mamães carregam os bebês assim. Que nome tem este tecido? Por que ela carrega nas costas?

Informações ao educador:
As mulheres carregam seus bebês em tecidos conhecidos como capulana ou pane. Ao amarrar a criança ela estará segura e a mãe poderá usar suas mãos para carregar objetos, segurar outra criança e até realizar os afazeres domésticos.



Uma escola diferente ou uma escola conhecida. Que turma é esta? Por que será estão de pé?

Informações ao educador:
As escolas são organizadas em salas precárias com poucos móveis. Muitas vezes um professor dá aulas para crianças de todas as idades juntas e são separadas por mesas ou bancos. Ex: nesta mesa será o 1º ano. As crianças estão de pé para receber os visitantes.

Algumas Curiosidades

As imagens a seguir apresentam alguns aspectos da cultura local em Bamako.

Na imagem a seguir, o costume de carregar os bebês nas costas usando a capulana. Nota-se as ruas em partes de terra, com esgoto a céu aberto.





Em algumas aldeias, ou até mesmo na cidade, há o costume de alimentar-se usando as mãos, nem todos usam talheres. Alimentação tem como base o arroz, a batata e o peixe, regados com um molho.



A vassoura utilizada na limpeza não possui cabo e a limpeza dos espaços é feita pelas mulheres.



Em Bamako e nas aldeias próximas à capital há muitas crianças. Uma de suas brincadeiras se assemelha à brincadeira de “rouba bandeira” no Brasil.



Nas aldeias visitadas as mulheres preparam a comida para as pessoas que lá residem e aos visitantes. Não há mesas ou cozinha, portanto, tudo é preparado no quintal.

Sugestões para o trabalho com a turma

1- Localização geográfica do país e do continente.

Faz se importante mostrar no mapa o local citado, pois, as crianças não aprenderam sobre as medidas e registros cartográficos. Assim pode-se oferecer um mapa mundi, ou apenas do continente africano, para localização dos espaços descobertos pela turma, uma vez que algumas crianças conhecem ou já ouviram falar de países como África do Sul ou a ilha de Madagascar.

2- Criação de estamparias a partir das imagens do jogo da memória.

A partir da observação dos tecidos as crianças poderão criar estampas próprias, com desenhos coletados nos tecidos africanos e no tecido brasileiro conhecido como “chita”.

3- Brincadeira com o tecido para imitar a mamãe carregando o bebê.

Como na foto apresentada no material. As meninas, principalmente, gostam muito desta brincadeira, mas vale dizer aos meninos que os homens africanos usam batas largas e o quão importante é pensar sobre o papel da mulher na cultura. Tal discussão se faz mister, pois Mali é um país que valoriza mais aos homens do que às mulheres, estas que estão encarregadas do trabalho em casa e de conseguirem sozinhas seus proventos. Por isso, trabalham vendendo pequenas mercadorias e carregam consigo seus filhos.

4- Uso da “capulana” (tecido) nos cabelos ou como vestes.

O tecido é parte marcante desta cultura e as mulheres o utilizam para amarrar na cabeça formando lindos arranjos e nós. Geralmente, as mulheres casadas precisam manter a tradição do tecido ou lenço cobrindo os cabelos.
Além disso, comumente, os costureiros são os homens, que fazem sob medida a maioria das roupas. Seria interessante propor às crianças a pesquisa sobre o tipo de tecidos e roupas que os africanos usam. São parecidas na maioria dos países.

5- Produção de texto, desenhos sobre as temáticas apresentadas pelas fotos.

Uma boa forma de registro ou representação do pensamento das crianças é quando pedimos que desenhem algo com significado para elas, depois de terem conhecido e visto mais sobre o país do Mali. Tenho visto desenhos expressivos com detalhes bem marcantes feitos pelas crianças que entram em contato com este material.

6- Produção de gravuras com carimbos

feitos de E.V.A., batata, limão e outros materiais, imitando o processo de fabricação dos tecidos.
A realização de desenhos e traços que aparecem nos tecidos africanos pode ser feita em bandejas de isopor, de modo que deixem as linhas mais profundas ou marcadas. Esse isopor recebe uma quantidade de tinta guache bem distribuída. Em seguida, coloca-se uma folha de papel sobre o desenho com tinta passando levemente a mão para que a tinta penetre nos espaços não marcados.
A proposta supracitada se assemelha ao processo de produção de gravuras. Também podem produzir desenhos na batata, cenoura ou outros fazendo com que a forma seja talhada neste legume.

Palavrinha final

Este material é apenas o início de um diálogo com as crianças sobre a cultura africana, nesse sentido, estamos à disposição para continuá-lo. Contamos com seu apoio enviando relatos sobre a utilização do material. Abraços, Beloní
Contatos por email: caciquebeloni@gmail.com

Autora, Ilustradora e Fotógrafa: Beloní Cacique Braga Designer Gráfico: Pedro Henrique Cacique Braga Coordenadora Pedagógica: Eliane Viera Tinoco

Referências

GASSES, Stéphanie. Inclusão versus exclusão escolar: As estratégias de luta contra o analfabetismo no Mali. In: Revista Teias. Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index. php/revistateias/article/view/24065
Acesso em de 08 agosto 2018.

Mapa disponível em : https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Africa,administrative_divisions-de-_colored.svg
Acesso em 28 de outubro de 2018.

Lei 10.639/2003. Disponível em: http://etnicoracial.mec.gov. br/images/pdf/lei_10639_09012003.pdf
Acesso em 08 de agosto de 2018.